Hanseníase e a atenção primária: Desafios educacionais e assistenciais na perspectiva de médicos residentes

  • Leonardo Cançado Monteiro Savassi Docente das Universidades Federais de Minas Gerais e de Ouro Preto.
  • Celina Maria Modena Pesquisadora do CPqRR/ Fiocruz Minas.
Palavras-chave: hanseníase, educação em saúde, atenção primária a saúde

Resumo

A atenção primária é o nível de atenção privilegiado para ações de controle da hanseníase, doença infecciosa, negligenciada e estigmatizante, que ainda não foi controlada como problema de saúde pública no Brasil. Para descrever a percepção de médicos que atuam na atenção primária acerca da hanseníase, foi realizado um grupo focal com sete residentes de Medicina de Família e Comunidade do município de Betim, Minas Gerais. Resultados: A análise do conteúdo apontou para as subcategorias das “fontes de conhecimento”, da “assistência no nível primário” e da “educação em saúde”. Demonstrou-se uma formação para hanseníase na graduação médica foi predominantemente teórica, com poucos casos e no serviço a educação permanente foi insuficiente. Na categoria da assistência, apontou-se a exigência de um alto nível de suspeição para avaliação clínica da hanseníase, e reconheceu-se a Atenção Primária como âmbito adequado para os pacientes a despeito da demanda excessiva e estrutura física inadequada; a referência obrigatória para serviços especializados cria divisões, amplia o estigma e dificulta o acompanhamento horizontal dos pacientes com esta doença. Nas práticas educativas, percebe-se a dissociação entre a doença e sua real gravidade, fato atribuído à mudança da nomenclatura; quanto à comunicação, há necessidade de um linguajar popular, uso da mídia de massa.O estigma foi um tema transversal. Conclusão: as três categorias de análise, conhecimentos (ausentes) - assistência (insuficiente) - educação em saúde (para suspeição) se integram para explicar as dificuldades do cuidado; a graduação em medicina foi insuficiente, baseada em conteúdo teórico, poucos casos, e gera a percepção de uma doença rara, do campo de ação do subespecialista. As ações educativas devem associar o sintoma «mancha» à gravidade da doença, e demanda uma Atenção Primária efetiva para atender adequadamente a estas pessoas.

Referências

1 World Health Organization. Global leprosy update, 2014: need for early case detection. Wkly Epidemiol Rec. 2015 Sept;90(36):461–76.
Ministério da Saúde (BR). Secretaria de Vigilância em Saúde. Hanseníase, verminoses e tracoma têm cura: a experiência de uma campanha integrada.Bol Epidemiol. 2016;47(21):1-10.
World Health Organization [Internet]. Geneve: WHO; c2016. [cited 2011 Oct 12]. The World Health Assembly Resolution 1991: World Health Assembly(WHA) resolution to eliminate leprosy; [about 1 screens]. Available from: http://www.who.int/lep/strategy/wha/en/index.html
2 World Health Organization. A guide to leprosy Control. 2a ed. Geneva: WHO; 1998. 121p.
3 Curi LM. Lepra e preventórios do Brasil: a Educação a serviço do “bem”. Evidência. 2006;2(2):149-79
4 Maciel LR, Oliveira MLW, Gallo MEN, Damasco MS. Memories and history of Hansen’s disease in Brazil told by witnesses (1960-2000). Hist Cienc Saúde Manguinhos. 2003;10(suppl.1):308-36.
5 Ducatti I. Discurso científico e legitimação política: hanseníase e isolamento compulsório (Brasil, Século XX). Proj Hist. São Paulo. 2007 Jun;(34):303-15.
6 Monteiro YN. Prophylaxis and exclusion: compulsory isolation of Hansen’s disease patients in São Paulo. Hist Cienc Saude Manguinhos. 2003;10(Suppl1):95-121
7 Santos VSM. Pesquisa documental sobre a história da hanseníase no Brasil. Hist Cienc Saude Manguinhos. 2003;10(Suppl.1):415-26.
8 BRASIL. Lei 378, de 13 de janeiro de 1937. Dá nova, organização ao Ministério da Educação e Saúde Publica. Diário Oficial [da] União, Rio de Janeiro, RJ, 13 jan 1937. Seção 1.
9 Ministério da Saúde (BR), Departamento Nacional de Saúde, Serviço Nacional de Lepra. Manual de Leprologia. Rio de Janeiro: MS, SNL; 1960. 171p.
10 DISTRITO FEDERAL. Decreto 9.761 de 21 de maio de 1949. Aprova o Regulamento Sanitário do Distrito Federal. Diário Oficial [da] União, Distrito Federal (Rio de Janeiro), 17 jun 1949, Seção 2, p. 35-46. Disponível em: . Acesso em: 27 jul 2016.
11 Rotberg A. A Fase III do controle da hanseníase começa no Brasil. Hansen Int. 1977;2(1):1-4
12 BRASIL. Decreto nº 77.513, de 29 abril de 1976. Revoga o Decreto n° 968 de 7 de maio de 1962, e dá outras providências. Diário Oficial [da] República Federativa do Brasil, Brasília, DF, 29 abr 1976.
13 BRASIL. Lei nº 9.010, de 29 março de 1995. Dispõe sobre a terminologia oficial relativa à hanseníase e dá outras providências. Diário Oficial [da] República Federativa do Brasil, Brasília, DF, 29 mar 1995.
14 BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Portaria conjunta no 125, de 26 março 2009. Define ações de controle da hanseníase. Diário Oficial [da] República Federativa do Brasil, Brasília, DF, de 26 mar 2009.15 Ministério da Saúde (BR), Departamento de Atenção Básica. Hanseníase. Informe da Atenção Básica. 2000 Ago;3:1-2
16 Ministério da Saúde (BR), Departamento de Atenção Básica. A responsabilidade da Atenção Básica no diagnóstico precoce da hanseníase. Informe da Atenção Básica. 2007 Set-Out;8(42):1-2.
17 BRASIL. Ministério da Saúde. Portaria nº 2.488, de 21 de outubro de 2011. Aprova a Política Nacional de Atenção Básica, estabelecendo a revisão de diretrizes e normas para a organização da Atenção Básica, para a Estratégia Saúde da Família (ESF) e o Programa de Agentes Comunitários de Saúde (PACS). Diário Oficial [da] República Federativa do Brasil, Brasília, DF, 24 out 2011.
18 Starfield B. Atenção primária: equilíbrio entre necessidades de saúde, serviços e tecnologia. Brasília: UNESCO, Ministério da Saúde; 2002.
19 Flick U. Introdução à pesquisa qualitativa. Porto Alegre: Artmed; 2009.
20 Krueger RA. Focus Group: a practical guide for applied research. Newbury Park: Sage; 1988.
21 Bardin L. Análise de conteúdo. Lisboa: Edições 70; 1988.
22 Morgan S. Focus Groups. Annu Rev Sociol. 1996 Ago; 22: 129-52.
23 Kelly-Santos A, Monteiro S, Rozemberg B. Significados e usos de materiais educativos sobre hanseníase segundo profissionais de saúde pública do município do Rio de Janeiro, Brasil. Cad Saude Pública. 2009; 25(4):857-67.
24 Santos AK, Ribeiro APG, Monteiro S. Hanseníase e práticas da comunicação:estudo de recepção de materiais educativos em um serviço de saúde no Rio de Janeiro. Interface: Comunicação, Saúde, Educação. 2012. 2012; 16 (40): 205-18.
25 Feliciano KVO, Kovacs MH. Opiniões sobre a doença entre membros da rede social de pacientes de hanseníase no Recife. Rev Panam Salud Publica.1997;1(2):112-18.
26 Queiroz MS, Carrasco MAP. O doente de hanseníase em Campinas: uma perspectiva antropológica. Cad Saude Pública.1995;11(3):479-90.
27 Barreto JA. Conhecimentos de médicos sobre hanseníase e reflexos em sua epidemiologia [Internet]. Brasília: CFM; 2016. [citado 2013 jan 10]. Disponível em: http://portal.cfm.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=23040:conhecimentos-de-medicos-sobre-hanseniase-e-reflexos-em-sua-epidemiologia&catid=46
28 Moreno CMC, Enders B, Simpson CA. Avaliação das capacitações de hanseníase: opinião de médicos eenfermeiros das equipes de saúde da família. Rev Bras Enferm. 2008 nov; 61(n.esp.): 671-75.
29 Resende DM, Souza MR, Santana CF. Hanseníase na atenção básica de saúde: principais causas da alta prevalência de hanseníase na cidade de Anápolis-GO. Hansen Int. 2009; 34(1): 27-36.
30 Savassi LCM. Qualidade em serviços públicos: os desafios da atenção primária. Rev Bras Med Fam Comunidade. 2012; 7 (23): 69-74.
31 Landsberg GP, Savassi LCM, Sousa AB, Freitas JM, Nascimento J, Azarga P. Análise de demanda em Medicina de Família no Brasil utilizando a Classificação Internacional de Atenção Primária. Cien Saude Colet. 2012; 17(11): 3025-36.
32 Jepson GMH. How do primary health care systems compare across Western Europe? Pharm J. 2001; 267: 269-73.
33 Altschuler J, Margolius D, Bodenheimer T, Grumbach K. Estimating a reasonable patient panel size for primary care physicians with team-based task delegation. Ann Fam Med. 2012;10(5):396-400.
34 Kelly-Santos A, Monteiro SS, Ribeiro APG. Acervo de materiais educativos sobre hanseníase: um dispositivo da memória e das práticas comunicativas. Interface. 2010;14(32):37-51.
35 Mcwhinney I, Freeman T. Textbook of family medicine. New York: Oxford University Press; 2009. 460p.
36 Gazzinelli MF, Gazzinelli A, Reis DC, Penna CMM. Educação em saúde: conhecimentos,representações sociais e experiências da doença. Cad Saude Publica. 2005; 21(1): 200-6.
37 Glanz K, Rimer BK, Viswanath K. Health behavior and health education: theory, research, and practice. San Francisco: JW&S; 2008. 592p.
38 Hochbaum GM. Public participation in medical screening programs: a socio-psychological study. Washington: PHS publication;1958.
39 Hochbaum GM, Sorenson JR, Lorig K. Theory in health education practice. Health EducBehav.1992;19:295-313.
40 Savassi LCM, Bogutchi TS, Oliveira APS, Modena, CM. A influência da internação compulsória em hospitais-colônia na qualidade de vida de cuidadores e pacientes com sequelas de hanseníase. Hansen Int. 2009;34:21-31.
41 Figueiredo FS. Lepra e loucura [monografia]. Betim (MG): Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais; 2005. 56 p.
42 Ceccim RB, Feuerwerker LCM. O quadrilátero da formação para a área da saúde: ensino, gestão, atenção e controle social. Physis. 2004;14(1):41-65.
Publicado
2015-11-30
Como Citar
1.
Savassi LCM, Modena CM. Hanseníase e a atenção primária: Desafios educacionais e assistenciais na perspectiva de médicos residentes. Hansen. Int. [Internet]. 30º de novembro de 2015 [citado 19º de maio de 2022];40(2):2-16. Disponível em: https://periodicos.saude.sp.gov.br/index.php/hansenologia/article/view/36169
Seção
Artigos originais