Arquitetura da loucura: uma leitura arqueológica do Hospital de Neuropsiquiatria Infantil (Belo Horizonte – MG)

Autores

  • Juliana Brandão Professora Substituta de História do Instituto Federal de Minas Gerais – Campus Ouro Preto. Doutoranda em Antropologia, área de concentração em Arqueologia, pela Universidade Federal de Minas Gerais, e mestre pela mesma instituição.

DOI:

https://doi.org/10.47692/cadhistcienc.2017.v13.33850

Palavras-chave:

Arqueologia da arquitetura, Hospital de Neuropsiquiatria Infantil, espacialidade, poder disciplinar

Resumo

Uma vez que as construções arquitetônicas são ambientes artificialmente construídos, pensados e projetados por seres humanos, por que não as considerar artefatos arqueológicos ou, conforme denominado por algumas arqueólogas e arqueólogos, como superartefato? É desse modo que abordamos o antigo Hospital de Neuropsiquiatria Infantil (HNPI), de Belo Horizonte, Minas Gerais, que funcionou entre os anos de 1947 e 1980.
Partindo dos pressupostos da Arqueologia da Arquitetura, mostramos, ao longo deste artigo, como a materialidade do HNPI, para além de um imperativo de saúde mental, apresentava discursos de poder, tendo funcionado como um verdadeiro controlador social ao tirar de circulação
uma gama de “pequenos indesejáveis”. Sua disposição espacial permite-nos pensar alguns discursos não verbais materializados na instituição, os quais atuaram como estratégias de disciplinamento, controle e cura daqueles considerados loucos ou problemas sociais.

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Publicado

2017-06-30

Como Citar

Brandão, J. (2017). Arquitetura da loucura: uma leitura arqueológica do Hospital de Neuropsiquiatria Infantil (Belo Horizonte – MG). Cadernos De História Da Ciência, 13(1), 27–55. https://doi.org/10.47692/cadhistcienc.2017.v13.33850