Resumo
Introdução: a hanseníase é uma doença infectocontagiosa e sistêmica, causada pelo Mycobacterium leprae, caracterizada por lesões de pele e nervos periféricos. Apresenta uma distribuição heterogênea no território nacional, trazendo questionamento sobre os fatores que poderiam explicar a diferença entre os estados. Objetivo: analisar os casos de hanseníase no estado do Rio Grande do Sul de 2018 a 2022 para compreender os fatores contribuintes ao cenário. Métodos: estudo observacional descritivo transversal realizado mediante coleta de dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação. As notificações de hanseníase do estado foram analisadas segundo as variáveis: sexo, raça, escolaridade, faixa etária e forma clínica, juntamente à taxa de detecção. Resultados: nesse período, o Rio Grande do Sul foi o terceiro estado com menos casos de hanseníase, com 620 notificações. A maior parte ocorreu em indivíduos do sexo masculino, faixa etária de 60-69 anos, nível de escolaridade de 5ª a 8ª série incompleta do Ensino Fundamental e autodeclarados brancos. O grau de incapacidade física 0 foi de maior frequência, assim como a forma clínica dimorfa, seguida pela virchowiana. Os indicadores de saneamento básico apresentaram condições ainda deficitárias, entretanto, os de cobertura vacinal com BCG estavam acima da média brasileira. Discussão: a elevada incidência de casos entre homens no Rio Grande do Sul é congruente com a literatura existente e não aparenta estar relacionada com a característica demográfica do estado. A predominância de casos em indivíduos de pele branca apresenta uma correlação direta com a composição étnico-racial da população deste estado. Os dados sobre a escolaridade encontrados destacam a baixa instrução como uma característica importante entre os portadores de hanseníase. Ademais, a predominância de casos multibacilares da hanseníase sugere que o Rio Grande do Sul apresenta uma endemia antiga e predominantemente estabilizada. Conclusão: o estado analisado não apresenta o menor número bruto de casos de hanseníase, entretanto, manifesta menores valores da taxa de detecção. Apesar da pesquisa possuir limitações por proceder de uma base de dados secundária, evidencia-se que é fundamental a implementação de educação em saúde visto a transmissão da doença.
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